quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?

"Eu me sinto sozinho", ele disse, e fechou os olhos. Sentir-se sozinho era a forma única e mais segura que ele conhecia de se colocar em contato com seu eu mais secreto e vulnerável, aquele ao qual só conseguia acesso no escuro mais denso no qual podia se considerar invisível. "Eu me sinto sozinho e tenho saudade". Porque era afinal possível ter posse de um sentimento, mesmo de um que não sabia definir.

Essa era a hora em que ele removia o chão sólido e falso que dava acesso ao porão onde mantinha aprisionado o seu âmago, perigoso que era. E descia, sem objetivo em mente além de ficar num estado de meditativa contemplação em relação à sua contraparte. Porque prender também é uma forma de proteger.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?

Pois é a coisa mais última que se pode dar de si, disse Ulisses."

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

E se...

... a dor forçada seja uma forma de libertação?

(talvez, no fundo, eu não seja tão ruim assim)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Agora em silêncio



"Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou, se entender, não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então, eu troco o meu amor por um punhado de carinho e boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, pára de dar carinho e corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si mesmo e nem ao outro. 


Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava haveria de existir em algum lugar do planeta! Haveria de existir! Nem que este lugar fosse apenas dentro de mim… Mesmo que ele não existisse mais em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construi-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, um banquinho cheio de almofadas coloridas e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banquinho do nosso amor, o nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a quantos anos, não sei, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas. 


No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha arte será uma grande mentira, as minhas histórias de amor serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote, é a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia. 


Agora em silêncio, tentando ensinar dragões a nadar."

terça-feira, 25 de setembro de 2012

E se, de repente,

todos os seus planos passassem a dar completamente certo?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma história que podia ser a sua (ou a minha, ou a de qualquer um(a))

O que acontecia na verdade com ela é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam -- ela havia por medo cortado o amor. Mas havia cortado o amor sem ter em mãos nada que o substituísse -- passando a creditar a nada sua razão de existir. E assim os dias lhe passavam todos iguais, donos de uma rotina absoluta que só se dissolvia um pouco durante algumas noites quando ela se permitia, no que chamava de liberdade, uma embriaguez que a afastava da monocromia de sua vida.

O problema era que quando o sol raiava no dia seguinte o inebriamento já havia passado e o dia voltava a ser irrevogavelmente cinza. Sem o amor, vivia numa permanente dualidade: por fora, uma alegria e uma empolgação aparentes e convincentes em relação a tudo que pudesse se passar por distração e servir para esquecer um pouco o que se passava por dentro: um vazio de alma que só sentia quem estava perdido no seu próprio mundo e no alheio, sem forma visível de contato.

Foi então que ele apareceu na sua vida. Ele, que não se aproximara dela por mais do que o desejo pelas belas curvas de seu corpo, sabia enxergar além das aparências e agora parecia perceber o quão inatingível ela era. E não apenas inatingível por ele, mas por ela própria e pelo mundo. Ela vivia numa espécie de alienação que a afastasse do vazio que o abandono do amor lhe causara, e nisso ela se alienava de si mesma e mantinha seu lado mais interior invisível -- a ponto de nem ela conseguir recordar a essência de seu âmago. E então se reduzira ao próprio escapismo de seu passado e da dor que o acompanhava.

No início, estava apenas interessada em esquecer junto dele. Ele também parecia fugir -- não se sabe bem de quê, mas ele avançava rápido em qualquer direção que o lembrasse pouco de onde vinha, até que percebeu que uma fuga conjunta era impossível pois um sempre lembraria o outro de que estavam correndo e acabariam por continuamente reviver o que tentavam, juntos, esquecer. Então a pretensão aumentou e agora ela queria que ele, sendo, suplantasse tudo o que qualquer um tinha chegado a ser em todos os infinitos séculos de existência do mundo. Mas logo abandonou também a ideia por motivos de inviabilidade: o mundo era velho demais e sempre haveria alguém mais bem sucedido na tentativa de: ser. Contentou-se enfim em ser desejada.

Já fora desejada por inúmeros homens antes mas o desejo que ele oferecia era diferente: não era um desejo puramente carnal de quem quer possuí-la mas um desejo paciente, de alguém decidido a saborear cada infinitésimo do que ela era, até os recantos de alma que ela nunca tinha visitado. Sobretudo era um desejo de alguém que queria possuí-la por inteiro. E em sua espera ela se deleitava, sabendo que podia brincar de se vestir e se despir com os vários guarda-roupas de peles e personalidades e vontades que acumulara na sua curta experiência de viver. Sabendo que o teria pacientemente observando, aproveitando cada átimo da espera como se fosse a própria realização do desejo contido.

Mas esperar em excesso invoca a impaciência que só sente quem está perto demais do que quer e logo se viram no impasse de não saber como lidar com o momento em que se encontrariam por fim. Até porque havia a dúvida: o que fazer quando se tem alguém? Possuir uma pessoa é muito mais grave que possuir um objeto: enquanto um objeto pode ser descartado quando sua utilidade acaba, os laços que prendem pessoas são muito mais delicados e a posse é muitas vezes mútua. E ela não estava sequer certa sobre se estava disposta a despender o esforço necessário a quem divide-se entre ser e ter propriedade.

Na verdade, não tinha sequer certeza sobre se quereria se envolver: ele despertava nela, sim, um desejo sincero e profundo como o desejo do que não se conhece e do que não se pode desvendar, mas às vezes pensava que era muito o que pedia em troca: ela toda. Ele a exigiria em sua plenitude e isso a colocaria em contato com sua parte mais íntima que ela evitava encarar. Sim, tinha medo principalmente da intimidade: não da intimidade de corpos porque a esta já estava habituada, mas da intimidade de almas que era do que ele tinha fome.

A saída era desistir. Se invadir um corpo era crime hediondo, invadir uma alma era tão pior que ainda era tabu -- fazia-se silêncio sobre sua gravidade como que para evitar dar a ideia do crime a alguém. Ela encontraria um outro ele: um a quem pudessem se possuir sem a necessidade de criar laços. Ele podia não provocar nela um desejo como o outro tinha sido capaz de provocar. Podia inclusive não desejá-la tanto. Não tinha importância. Se sobretudo ele assinasse o pacto silencioso prometendo não a descobrir, tudo ficaria bem.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sea lo que quera Dios que sea

Dói tanto. É um grande desespero. O desespero de saber-se há muito preparado para um momento que não chega. Estou plenamente preparado para o amor mas nunca me ensinaram a me preparar para a preparação do amor. Estou pronto para um lugar onde não sei chegar. Sou como um atleta preparado para os Jogos Olímpicos a quem ninguém disse que ninguém nasce lá dentro. E que não sabe as regras da classificação. Mas que sobretudo não sabe esperar. Porque todo instante que passa te aproxima da morte e esperar também é morrer um pouquinho. E não estou pronto pra morrer. Passei toda a vida acreditando que qualquer um sempre estava pronto pra morrer mas agora sei que não: é necessário um grande ritual. E estou pronto para o amor, não para a morte. Mesmo que não saiba como fazê-lo nascer.

Ou será o amor uma ressuscitação? Será que todo o sentido da infinita espera seja justamente o de deixá-lo morrer para que renasça, novo e puro, como que das cinzas? Então morra logo, amor, morra logo para que eu possa assistir já o espetáculo do ressurgimento. Não sei esperar. E a preparação para o que não chega é inútil. Portanto morra logo, enquanto estou vivo e ainda há tempo. Tempo de quê? Não sei, tempo. Só se sabe o que fazer com um brinquedo quando se olha pra ele, antes disso qualquer planejamento é inútil. Uma vez esperei por muitos anos (veio daí meu ódio pela espera?) um presente e planejei cuidadosamente todas as formas de usá-lo antes mesmo de tê-lo em mãos. Tinha em mente anos de ocupação -- tudo absolutamente vão. Finalmente recebi-o e não sabia mais o que fazer com ele -- tinha-o esgotado em pensamento. Mas não tinha importância: passei a olhá-lo com calma -- porque sei ter calma sem espera -- e percebi nele milhões de novos detalhes que meu pensamento nunca seria capaz de captar, sozinho. E inventei inesgotáveis milhões novas formas de brincar.

Vou explicar: meu ódio da espera vem da sensação de impotência: o que se pode fazer esperando? É uma agonia tão grande a da expectativa. Estou por exemplo há tempos esperando uma viagem que não chega nunca. E o desespero não é nem o de ir embora porque esse eu não o tenho. O problema é o status social de quem espera: o de um amputado. De repente você se vê fora de todos os planos, como se a iminência da partida fosse razão para exclusão -- decidem que é e pronto, estou invalidado. Como se a espera te impossibilitasse de assumir compromissos: eu que vou embora e os outros que têm medo. Pois digo uma coisa: deixem um pouco de ansiedade pra mim também. Porque, apesar do ditado, a partida não é mais fácil pra quem vai do que pra quem fica: a ruptura é recíproca.