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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fome de fome

"O que tu tens e queres saber (porque te dói), não tem nome.
Só tem (mas vazio) o lugar que abriu em tua vida a sua própria falta.


A dor que te dói pelo avesso, perdida nos teus escuros,
É como alguém que come não o pão, mas a fome
(...)"

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

De mim para mim IV: esta noite

" 'seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido',
meu editor me telefona.


caro editor:
parece que as garotas já se
foram.


entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção


e o senhor pode ficar com todos os poemas


os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.


entendo o que o senhor me diz.


O senhor entende o que eu digo?"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

De mim para mim III - A Injustiça

"Quem descobre quem sou descobrirá quem és.
E o como, e o por onde.
Toquei muito cedo toda a injustiça.
A fome não era só fome.
Mas a medida do homem
O frio, o vento eram também medidas.
Mediu cem fomes e caiu o levantado.
E nos cem frios foi enterrado Pedro.
Um só vento durou a pobre casa.
Aprendi que o centímetro e o grama,
colher e légua mediam a cobiça,
e que o homem assediado caía depressa
para um buraco, e já não mais sabia.
Não mais, e esse era o lugar,
o real presente, o dom, a luz, a vida,
isso era, padecer de frio e fome,
e não possuir sapato e tremer
frente ao juiz, frente ao outro,
a outro ser com espada ou com tinteiro,
aos empurrões cavando e cortando, assim,
fazendo pão, colhendo o trigo, a coser,
pregando cada prego que pedia madeira,
à terra penetrando como ao intestino
para tirar, às cegas, carvão crepitante
e mais ainda, subindo rios e cordilheiras,
cavalgando cavalos, movendo barcaças,
cozendo telhas, soprando vidros, lavando roupa,
de tal maneira que pareceria
tudo isto o reino recém levantado,
uva resplandecente no seu cacho,
quando o homem se decidiu a ser feliz,
não era, não assim. Fui descobrindo
a lei da desventura,
o trono de ouro ensanguentado,
a liberdade alcoviteira,
a pátria sem abrigo,

o coração ferido e fatigado,
e um rumor de mortos sem lágrimas,
secos, como pedras que caem.
E então deixei de ser menino
porque compreendi que para o meu povo
não lhe permitiram a vida
e lhe negaram sepultura."

De mim para mim II - já vi mendigos demais com os olhos vidrados bebendo vinho barato debaixo da ponte

"você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.

você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?

eles mostram a morte.

e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?

nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.

enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito

se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito."

De mim para mim I - Sobre a Insônia

"Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."