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terça-feira, 8 de janeiro de 2013
"Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?
Pois é a coisa mais última que se pode dar de si, disse Ulisses."
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Uma história que podia ser a sua (ou a minha, ou a de qualquer um(a))
O que acontecia na verdade com ela é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam -- ela havia por medo cortado o amor. Mas havia cortado o amor sem ter em mãos nada que o substituísse -- passando a creditar a nada sua razão de existir. E assim os dias lhe passavam todos iguais, donos de uma rotina absoluta que só se dissolvia um pouco durante algumas noites quando ela se permitia, no que chamava de liberdade, uma embriaguez que a afastava da monocromia de sua vida.
O problema era que quando o sol raiava no dia seguinte o inebriamento já havia passado e o dia voltava a ser irrevogavelmente cinza. Sem o amor, vivia numa permanente dualidade: por fora, uma alegria e uma empolgação aparentes e convincentes em relação a tudo que pudesse se passar por distração e servir para esquecer um pouco o que se passava por dentro: um vazio de alma que só sentia quem estava perdido no seu próprio mundo e no alheio, sem forma visível de contato.
Foi então que ele apareceu na sua vida. Ele, que não se aproximara dela por mais do que o desejo pelas belas curvas de seu corpo, sabia enxergar além das aparências e agora parecia perceber o quão inatingível ela era. E não apenas inatingível por ele, mas por ela própria e pelo mundo. Ela vivia numa espécie de alienação que a afastasse do vazio que o abandono do amor lhe causara, e nisso ela se alienava de si mesma e mantinha seu lado mais interior invisível -- a ponto de nem ela conseguir recordar a essência de seu âmago. E então se reduzira ao próprio escapismo de seu passado e da dor que o acompanhava.
No início, estava apenas interessada em esquecer junto dele. Ele também parecia fugir -- não se sabe bem de quê, mas ele avançava rápido em qualquer direção que o lembrasse pouco de onde vinha, até que percebeu que uma fuga conjunta era impossível pois um sempre lembraria o outro de que estavam correndo e acabariam por continuamente reviver o que tentavam, juntos, esquecer. Então a pretensão aumentou e agora ela queria que ele, sendo, suplantasse tudo o que qualquer um tinha chegado a ser em todos os infinitos séculos de existência do mundo. Mas logo abandonou também a ideia por motivos de inviabilidade: o mundo era velho demais e sempre haveria alguém mais bem sucedido na tentativa de: ser. Contentou-se enfim em ser desejada.
Já fora desejada por inúmeros homens antes mas o desejo que ele oferecia era diferente: não era um desejo puramente carnal de quem quer possuí-la mas um desejo paciente, de alguém decidido a saborear cada infinitésimo do que ela era, até os recantos de alma que ela nunca tinha visitado. Sobretudo era um desejo de alguém que queria possuí-la por inteiro. E em sua espera ela se deleitava, sabendo que podia brincar de se vestir e se despir com os vários guarda-roupas de peles e personalidades e vontades que acumulara na sua curta experiência de viver. Sabendo que o teria pacientemente observando, aproveitando cada átimo da espera como se fosse a própria realização do desejo contido.
Mas esperar em excesso invoca a impaciência que só sente quem está perto demais do que quer e logo se viram no impasse de não saber como lidar com o momento em que se encontrariam por fim. Até porque havia a dúvida: o que fazer quando se tem alguém? Possuir uma pessoa é muito mais grave que possuir um objeto: enquanto um objeto pode ser descartado quando sua utilidade acaba, os laços que prendem pessoas são muito mais delicados e a posse é muitas vezes mútua. E ela não estava sequer certa sobre se estava disposta a despender o esforço necessário a quem divide-se entre ser e ter propriedade.
Na verdade, não tinha sequer certeza sobre se quereria se envolver: ele despertava nela, sim, um desejo sincero e profundo como o desejo do que não se conhece e do que não se pode desvendar, mas às vezes pensava que era muito o que pedia em troca: ela toda. Ele a exigiria em sua plenitude e isso a colocaria em contato com sua parte mais íntima que ela evitava encarar. Sim, tinha medo principalmente da intimidade: não da intimidade de corpos porque a esta já estava habituada, mas da intimidade de almas que era do que ele tinha fome.
A saída era desistir. Se invadir um corpo era crime hediondo, invadir uma alma era tão pior que ainda era tabu -- fazia-se silêncio sobre sua gravidade como que para evitar dar a ideia do crime a alguém. Ela encontraria um outro ele: um a quem pudessem se possuir sem a necessidade de criar laços. Ele podia não provocar nela um desejo como o outro tinha sido capaz de provocar. Podia inclusive não desejá-la tanto. Não tinha importância. Se sobretudo ele assinasse o pacto silencioso prometendo não a descobrir, tudo ficaria bem.
O problema era que quando o sol raiava no dia seguinte o inebriamento já havia passado e o dia voltava a ser irrevogavelmente cinza. Sem o amor, vivia numa permanente dualidade: por fora, uma alegria e uma empolgação aparentes e convincentes em relação a tudo que pudesse se passar por distração e servir para esquecer um pouco o que se passava por dentro: um vazio de alma que só sentia quem estava perdido no seu próprio mundo e no alheio, sem forma visível de contato.
Foi então que ele apareceu na sua vida. Ele, que não se aproximara dela por mais do que o desejo pelas belas curvas de seu corpo, sabia enxergar além das aparências e agora parecia perceber o quão inatingível ela era. E não apenas inatingível por ele, mas por ela própria e pelo mundo. Ela vivia numa espécie de alienação que a afastasse do vazio que o abandono do amor lhe causara, e nisso ela se alienava de si mesma e mantinha seu lado mais interior invisível -- a ponto de nem ela conseguir recordar a essência de seu âmago. E então se reduzira ao próprio escapismo de seu passado e da dor que o acompanhava.
No início, estava apenas interessada em esquecer junto dele. Ele também parecia fugir -- não se sabe bem de quê, mas ele avançava rápido em qualquer direção que o lembrasse pouco de onde vinha, até que percebeu que uma fuga conjunta era impossível pois um sempre lembraria o outro de que estavam correndo e acabariam por continuamente reviver o que tentavam, juntos, esquecer. Então a pretensão aumentou e agora ela queria que ele, sendo, suplantasse tudo o que qualquer um tinha chegado a ser em todos os infinitos séculos de existência do mundo. Mas logo abandonou também a ideia por motivos de inviabilidade: o mundo era velho demais e sempre haveria alguém mais bem sucedido na tentativa de: ser. Contentou-se enfim em ser desejada.
Já fora desejada por inúmeros homens antes mas o desejo que ele oferecia era diferente: não era um desejo puramente carnal de quem quer possuí-la mas um desejo paciente, de alguém decidido a saborear cada infinitésimo do que ela era, até os recantos de alma que ela nunca tinha visitado. Sobretudo era um desejo de alguém que queria possuí-la por inteiro. E em sua espera ela se deleitava, sabendo que podia brincar de se vestir e se despir com os vários guarda-roupas de peles e personalidades e vontades que acumulara na sua curta experiência de viver. Sabendo que o teria pacientemente observando, aproveitando cada átimo da espera como se fosse a própria realização do desejo contido.
Mas esperar em excesso invoca a impaciência que só sente quem está perto demais do que quer e logo se viram no impasse de não saber como lidar com o momento em que se encontrariam por fim. Até porque havia a dúvida: o que fazer quando se tem alguém? Possuir uma pessoa é muito mais grave que possuir um objeto: enquanto um objeto pode ser descartado quando sua utilidade acaba, os laços que prendem pessoas são muito mais delicados e a posse é muitas vezes mútua. E ela não estava sequer certa sobre se estava disposta a despender o esforço necessário a quem divide-se entre ser e ter propriedade.
Na verdade, não tinha sequer certeza sobre se quereria se envolver: ele despertava nela, sim, um desejo sincero e profundo como o desejo do que não se conhece e do que não se pode desvendar, mas às vezes pensava que era muito o que pedia em troca: ela toda. Ele a exigiria em sua plenitude e isso a colocaria em contato com sua parte mais íntima que ela evitava encarar. Sim, tinha medo principalmente da intimidade: não da intimidade de corpos porque a esta já estava habituada, mas da intimidade de almas que era do que ele tinha fome.
A saída era desistir. Se invadir um corpo era crime hediondo, invadir uma alma era tão pior que ainda era tabu -- fazia-se silêncio sobre sua gravidade como que para evitar dar a ideia do crime a alguém. Ela encontraria um outro ele: um a quem pudessem se possuir sem a necessidade de criar laços. Ele podia não provocar nela um desejo como o outro tinha sido capaz de provocar. Podia inclusive não desejá-la tanto. Não tinha importância. Se sobretudo ele assinasse o pacto silencioso prometendo não a descobrir, tudo ficaria bem.
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sábado, 11 de agosto de 2012
Porque o coração é cheio de espinhos
"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando de minha própria força. Sou forte mas também destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O crime do professor de matemática
"'Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão', pensou o homem. 'Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.'
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
quarta-feira, 1 de junho de 2011
No meio do caminho ele se perdeu
"Uma vez dividiu-se, inquietou-se, passou a sair e a procurar-se. Foi a lugares onde se encontravam homens e mulheres. Todos disseram: felizmente despertou, a vida é curta, precisa-se aproveitar, antes ela era apagada, agora é que é gente. Ninguém sabia que ela estava sendo infeliz a ponto de precisar buscar a vida."
(talvez eu só ainda não tenha "despertado" pra não precisar encarar, no processo, a infelicidade)
(talvez eu só ainda não tenha "despertado" pra não precisar encarar, no processo, a infelicidade)
domingo, 20 de março de 2011
Apesar de
"- Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso."
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Do segredo dos outros
"Já tentei olhar bem de perto o rosto de uma pessoa — uma bilheteira de cinema. Para saber do segredo de sua vida. Inútil. A outra pessoa é um enigma. E seus olhos são de estátua: cegos."
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Em busca do prazer
"E tanto sofrimento por estar, às vezes sem nem saber, à cata de prazeres. Não sei bem como esperar que eles venham sozinhos. E é tão dramático: basta olhar numa boate à meia luz os outros: a busca do prazer que não vem sozinho e de si mesmo. A busca do prazer me tem sido água ruim: colo a boca e sinto a boca enferrujada, escorrem dois pingos de água morna: é a água seca. Não, antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado."
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
O presente
"...Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si"
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
A experiência maior
"Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros: e o âmago dos outros era eu." (Clarice Lispector)
O erro dos inteligentes
"Mas é que o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave: elas têm os argumentos que provam." (Clarice Lispector)
Trechos - Clarice
"Estranhei tudo. E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei. Tomei um táxi que me deixaria em casa, e refleti sem amargura: muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro. E eu nem quis conversar com o chofer."
"A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles d'água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho."
"A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles d'água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho."
Sim
"Eu disse a uma amiga:
-- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
-- Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim."
(Clarice Lispector)
-- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
-- Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim."
(Clarice Lispector)
domingo, 8 de agosto de 2010
Mas há a vida
"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata."
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Em resposta a quaisquer críticas sobre impulsividade
"Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."
A identidade da autora é óbvia.
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