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terça-feira, 25 de setembro de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Sea lo que quera Dios que sea
Dói tanto. É um grande desespero. O desespero de saber-se há muito preparado para um momento que não chega. Estou plenamente preparado para o amor mas nunca me ensinaram a me preparar para a preparação do amor. Estou pronto para um lugar onde não sei chegar. Sou como um atleta preparado para os Jogos Olímpicos a quem ninguém disse que ninguém nasce lá dentro. E que não sabe as regras da classificação. Mas que sobretudo não sabe esperar. Porque todo instante que passa te aproxima da morte e esperar também é morrer um pouquinho. E não estou pronto pra morrer. Passei toda a vida acreditando que qualquer um sempre estava pronto pra morrer mas agora sei que não: é necessário um grande ritual. E estou pronto para o amor, não para a morte. Mesmo que não saiba como fazê-lo nascer.
Ou será o amor uma ressuscitação? Será que todo o sentido da infinita espera seja justamente o de deixá-lo morrer para que renasça, novo e puro, como que das cinzas? Então morra logo, amor, morra logo para que eu possa assistir já o espetáculo do ressurgimento. Não sei esperar. E a preparação para o que não chega é inútil. Portanto morra logo, enquanto estou vivo e ainda há tempo. Tempo de quê? Não sei, tempo. Só se sabe o que fazer com um brinquedo quando se olha pra ele, antes disso qualquer planejamento é inútil. Uma vez esperei por muitos anos (veio daí meu ódio pela espera?) um presente e planejei cuidadosamente todas as formas de usá-lo antes mesmo de tê-lo em mãos. Tinha em mente anos de ocupação -- tudo absolutamente vão. Finalmente recebi-o e não sabia mais o que fazer com ele -- tinha-o esgotado em pensamento. Mas não tinha importância: passei a olhá-lo com calma -- porque sei ter calma sem espera -- e percebi nele milhões de novos detalhes que meu pensamento nunca seria capaz de captar, sozinho. E inventei inesgotáveis milhões novas formas de brincar.
Vou explicar: meu ódio da espera vem da sensação de impotência: o que se pode fazer esperando? É uma agonia tão grande a da expectativa. Estou por exemplo há tempos esperando uma viagem que não chega nunca. E o desespero não é nem o de ir embora porque esse eu não o tenho. O problema é o status social de quem espera: o de um amputado. De repente você se vê fora de todos os planos, como se a iminência da partida fosse razão para exclusão -- decidem que é e pronto, estou invalidado. Como se a espera te impossibilitasse de assumir compromissos: eu que vou embora e os outros que têm medo. Pois digo uma coisa: deixem um pouco de ansiedade pra mim também. Porque, apesar do ditado, a partida não é mais fácil pra quem vai do que pra quem fica: a ruptura é recíproca.
Ou será o amor uma ressuscitação? Será que todo o sentido da infinita espera seja justamente o de deixá-lo morrer para que renasça, novo e puro, como que das cinzas? Então morra logo, amor, morra logo para que eu possa assistir já o espetáculo do ressurgimento. Não sei esperar. E a preparação para o que não chega é inútil. Portanto morra logo, enquanto estou vivo e ainda há tempo. Tempo de quê? Não sei, tempo. Só se sabe o que fazer com um brinquedo quando se olha pra ele, antes disso qualquer planejamento é inútil. Uma vez esperei por muitos anos (veio daí meu ódio pela espera?) um presente e planejei cuidadosamente todas as formas de usá-lo antes mesmo de tê-lo em mãos. Tinha em mente anos de ocupação -- tudo absolutamente vão. Finalmente recebi-o e não sabia mais o que fazer com ele -- tinha-o esgotado em pensamento. Mas não tinha importância: passei a olhá-lo com calma -- porque sei ter calma sem espera -- e percebi nele milhões de novos detalhes que meu pensamento nunca seria capaz de captar, sozinho. E inventei inesgotáveis milhões novas formas de brincar.
Vou explicar: meu ódio da espera vem da sensação de impotência: o que se pode fazer esperando? É uma agonia tão grande a da expectativa. Estou por exemplo há tempos esperando uma viagem que não chega nunca. E o desespero não é nem o de ir embora porque esse eu não o tenho. O problema é o status social de quem espera: o de um amputado. De repente você se vê fora de todos os planos, como se a iminência da partida fosse razão para exclusão -- decidem que é e pronto, estou invalidado. Como se a espera te impossibilitasse de assumir compromissos: eu que vou embora e os outros que têm medo. Pois digo uma coisa: deixem um pouco de ansiedade pra mim também. Porque, apesar do ditado, a partida não é mais fácil pra quem vai do que pra quem fica: a ruptura é recíproca.
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segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Pra alguma coisa essa velhice toda há de servir
"Quando se está no foco da própria vida, é impossível refletir. E eu quero refletir, medir o mais aproximadamente possível esta coisa estranha que está acontecendo comigo, reconhecer meus próprios sinais, compensar minha falta de juventude com meu excesso de consciência."
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O crime do professor de matemática
"'Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão', pensou o homem. 'Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.'
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
sábado, 21 de janeiro de 2012
Essa minha necessidade do que é torrencial ainda vai me matar
Porque deve ser um defeito imperdoável o de não se contentar com metades. Viver insatisfeito até que se extraia de tudo seu máximo tem seus custos -- e a dificuldade de entender que é possível encontrar paz na simplicidade é um deles. Quando nenhum mergulho é profundo o suficiente qualquer regresso à superfície parece seco demais -- e na ânsia de atingir o fundo das águas, ignora-se todo o mundo que se estende por cima.
E acaba-se descartando um punhado grande de rios e lagos só por serem aparentemente rasos. Como se a infinitude fosse pré-requisito da felicidade.
No final, solidão e incompreensão: solidão que fica ao olhar para o lado e se ver desprovido de qualquer companheiro de insaciedade, e incompreensão de como é possível sobreviver na superfície depois de conhecer as profundezas do mundo e dos sentimentos.
(ignorando todas as vezes em que, no meio de uma tempestade, me pus a desejar qualquer coisa que me garantisse terra firme -- para me contentar não com metade, mas com qualquer milésimo de paz e calmaria)
E acaba-se descartando um punhado grande de rios e lagos só por serem aparentemente rasos. Como se a infinitude fosse pré-requisito da felicidade.
No final, solidão e incompreensão: solidão que fica ao olhar para o lado e se ver desprovido de qualquer companheiro de insaciedade, e incompreensão de como é possível sobreviver na superfície depois de conhecer as profundezas do mundo e dos sentimentos.
(ignorando todas as vezes em que, no meio de uma tempestade, me pus a desejar qualquer coisa que me garantisse terra firme -- para me contentar não com metade, mas com qualquer milésimo de paz e calmaria)
sábado, 7 de janeiro de 2012
Sobre quedas e a coragem de se manter firme
So here's the truth about truth: it hurts. So we lie.¹
E eu continuo achando que existe algum motivo metamoralista para ainda existir uma raça psicológica que insiste em negar sua declarada extinção, mantendo-se agarrada à sua preferência pela verdade. Também acho que o motivo vai além do masoquismo: é questão de (in)segurança. A verdade, apesar de fornecer uma visão árida e dura, fornece um piso firme, enquanto a mentira, tão bela aos olhos e ouvidos, deixa as pernas trêmulas e sempre alertas ao perigo da queda. E nada, nada é pior que cair, sem saber a que distância fica o chão.
¹Meredith Grey
(espécie de resposta a um post daqui, ó, outro blog indicadíssimo pra quem não ter medo de ler o mundo pintado com sensibilidade ímpar: http://manuscritodegaveta.blogspot.com/2009/07/e-depois-ha-o-alivio.html)
E eu continuo achando que existe algum motivo metamoralista para ainda existir uma raça psicológica que insiste em negar sua declarada extinção, mantendo-se agarrada à sua preferência pela verdade. Também acho que o motivo vai além do masoquismo: é questão de (in)segurança. A verdade, apesar de fornecer uma visão árida e dura, fornece um piso firme, enquanto a mentira, tão bela aos olhos e ouvidos, deixa as pernas trêmulas e sempre alertas ao perigo da queda. E nada, nada é pior que cair, sem saber a que distância fica o chão.
¹Meredith Grey
(espécie de resposta a um post daqui, ó, outro blog indicadíssimo pra quem não ter medo de ler o mundo pintado com sensibilidade ímpar: http://manuscritodegaveta.blogspot.com/2009/07/e-depois-ha-o-alivio.html)
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Mosaico
Vários momentos juntos, várias histórias. Pra cada uma delas uma lembrança diferente. Em cada uma delas, quase que uma pessoa diferente. E através disso tudo, a pergunta:
E que parte de você é verdade?
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Metagostar
E se a gente se dedicasse um pouco menos a gostar ou desgostar e um pouco mais a pensar sobre as coisas de que gostamos ou desgostamos?
domingo, 21 de agosto de 2011
Realismo
Definitivamente, a vida não é sobre esperar os momentos certos pra realizar as maiores coisas possíveis, mas sim realizar o máximo possível dentro dos momentos que se tem. Ambições megalomaníacas (ou mesmo as modestas) não são perdoadas quando elas envolvem espera ou qualquer sacrifício, por menor que seja. Tudo menos a dor da espera. Melhor o pequeno e seguro do que o grande e arriscado. Perdeu-se a vontade de apostar.
(E enquanto o medo do sofrimento ditar os rumos do futuro, não preciso dizer que não há nada de realmente bom a se esperar, né?)
(E enquanto o medo do sofrimento ditar os rumos do futuro, não preciso dizer que não há nada de realmente bom a se esperar, né?)
sábado, 13 de agosto de 2011
Autonomia
Porque sempre tem gente que acha que pode fazer escolhas da sua vida por você. Pensar por você, decidir por você, sonhar por você. Como se os seus pensamentos, suas decisões e seus sonhos não fossem legítimos ou bons o suficiente. Ou como se um sentimento de identificação implicasse que você repetirá os mesmos erros e atravessará as mesmas dificuldades de outrem.
Como se o seu caminho não pudesse ser só seu.
Como se o seu caminho não pudesse ser só seu.
domingo, 10 de julho de 2011
Atalhos corruptos
"Que horror: tenho as mãos úmidas e estou inundada de angústia."
É um só desespero. Uma angústia profunda. Sentimento que desperta cada célula do corpo e atormenta o cérebro numa tortura lenta e excruciante. Agonia que se traduz em tristeza. Tristeza que aprofunda a agonia.
Porque nem só de lógica vive o mundo. E na ilogicidade das ações e dos fatos reside a vida, em seu âmago. Em cada ato impulsivo, impensado, em cada suspiro desesperado. Em cada instante de escapismo.
E eles são muitos! Viver é caminhar na realidade se apoiando em momentos de fuga. Só não ficou claro ainda se se dá melhor quem tenta se apoiar o menos possível ou quem passa todo o tempo debruçado sobre o que quer que lhe sirva como distração. Afinal, se o que vale é o caminho e não o destino, alienar-se sobre o trajeto como forma de encontrar felicidade-mesmo-que-passageira é ação válida.
Mas não deveria ser. Pois a procura demasiada por atalhos faz perder de vista a estrada principal. E então a vida passa a se resumir a travessas que, desconexas, salientam a efemeridade do desvio, incapaz que é de preservar um rumo e fornecer algo mais que instantes fugidios de felicidade custosa.
Porque você precisa, pelo menos uma vez na vida, se perguntar:
Por que eu vivo?
Mesmo que não encontre resposta.
Porque nem só de lógica vive o mundo. E na ilogicidade das ações e dos fatos reside a vida, em seu âmago. Em cada ato impulsivo, impensado, em cada suspiro desesperado. Em cada instante de escapismo.
E eles são muitos! Viver é caminhar na realidade se apoiando em momentos de fuga. Só não ficou claro ainda se se dá melhor quem tenta se apoiar o menos possível ou quem passa todo o tempo debruçado sobre o que quer que lhe sirva como distração. Afinal, se o que vale é o caminho e não o destino, alienar-se sobre o trajeto como forma de encontrar felicidade-mesmo-que-passageira é ação válida.
Mas não deveria ser. Pois a procura demasiada por atalhos faz perder de vista a estrada principal. E então a vida passa a se resumir a travessas que, desconexas, salientam a efemeridade do desvio, incapaz que é de preservar um rumo e fornecer algo mais que instantes fugidios de felicidade custosa.
Porque você precisa, pelo menos uma vez na vida, se perguntar:
Por que eu vivo?
Mesmo que não encontre resposta.
[E Deus!, eu não faço o sentido que cobro dos outros. Quão culpado devo ser por isso?]
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terça-feira, 21 de junho de 2011
Neo-idealismo
(Ou, alternativamente, "De um idealismo sonhador a um idealismo pragmático")
Toda ideologia passa por mudanças.
Nasce de experiências, vai sendo lapidada por valores e sonhos, e, incubada, vai vagarosamente ganhando espaço. A partir daí, toda evolução e transformação ideológica dá-se por um processo dialético hegeliano -- algo como a noção de tese-antítese-síntese popularizada por Kant, mas mais claramente compreendido se tomarmos o conceito como concebido originalmente por Hegel: o Abstrato (a ideologia pura), sucedido pela Negação (o contato com a realidade) e sintetizando o Concreto (o substrato resultante). Dá-se, simples e necessariamente, porque toda ideologia se transforma. Ideologia imutável é ideologia nunca posta em prática.
Todo idealista sofre de um mal crônico: ingenuidade excessiva. Quer sempre acreditar que é possível, quer sempre acreditar nas pessoas, quer sempre que tudo seja perfeito. E não só quer, mas se esforça verdadeiramente para que as coisas aconteçam desse jeito (não, quem só acredita que tudo pode ser melhor não é idealista: é simplesmente otimista. O idealismo pressupõe ação). Mas, como nada é bom se não for ótimo, é comum ver oportunidades esvaindo-se sem que sejam aproveitadas. Pra tudo é necessário um ritual, tudo o que tem alguma importância é meticulosamente planejado e revisitado em pensamento incontáveis vezes antes de ser posto em prática. E, frequentemente, se há algum indício de que o plano não atingirá o grau de perfeição imaginado, adia-se sua realização, como se nenhuma falha fosse tolerável. O pecado do idealista é o cerimonialismo.
Então perde-se muito na vida até que se aprenda a deixar esse vício pra trás. Até que se perceba que oportunidades não esperam por situações ideais para aparecerem. Até que se perceba que, se não aproveitadas do jeito em que batem na sua porta, por mais maltrapilha que seja sua situação, vão procurar outro que melhor as use. Até que se perceba que o que torna um momento especial não é o quanto ele foi planejado ou quanto fidedigno ao roteiro ele provou ser, mas a sinceridade dos sentimentos envolvidos e as pessoas que participaram dele.
("Mas você mesmo é um grande fugitivo.", eu ouvi hoje. Devo ser mesmo.)
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
Sobre a infinitude do amor
"-- Só sei que nós nos amamos muito...
-- Por que você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
-- Não, eu falei no passado!
-- Curioso, né? É a mesma conjugação.
-- Que língua doida! Quer dizer que nós estamos condenados a amar para sempre?
-- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
-- Pensar assim me assusta.
-- Por quê? Você acha isso ruim?
-- É que nessas coisas de amor eu sempre doo demais...
-- Você usou o verbo 'doer' ou 'doar'?
-- (Pausa) Pois é, também dá no mesmo..."
(em sequência ao último post)
PS: não encontrei o autor, por isso não creditei. Google tem referências cruzadas sobre o assunto. Se alguém souber, com certeza, quem é, me conta que eu atualizo os créditos (:
-- Por que você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
-- Não, eu falei no passado!
-- Curioso, né? É a mesma conjugação.
-- Que língua doida! Quer dizer que nós estamos condenados a amar para sempre?
-- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
-- Pensar assim me assusta.
-- Por quê? Você acha isso ruim?
-- É que nessas coisas de amor eu sempre doo demais...
-- Você usou o verbo 'doer' ou 'doar'?
-- (Pausa) Pois é, também dá no mesmo..."
(em sequência ao último post)
PS: não encontrei o autor, por isso não creditei. Google tem referências cruzadas sobre o assunto. Se alguém souber, com certeza, quem é, me conta que eu atualizo os créditos (:
terça-feira, 17 de maio de 2011
Anti-convencionalidade confessada
Eu sempre me senti meio avesso às convenções sociais: não tanto as de etiqueta (também elas), mas principalmente àquelas que as próprias pessoas inventavam e levantavam de boa vontade como auto-defesa. São quase-rituais que se apresentam sob forma de obrigações recíprocas e consentidas, de existência compartilhada silenciosa e intuitivamente pelas pessoas do mundo. Algumas são até organicamente necessárias para a sobrevivência, como a simpatia inerente com estranhos: tão melhor viver entre um povo de reconhecida hospitalidade do que num em que as pessoas se comportassem de modo hostil ou indiferente com estranhos, não é? O raciocínio é simples e até bastante lógico: cada uma daquelas pessoas ainda sem significado nenhum em nossas vidas é alguém potencialmente importante -- quem saberia dizer quais daqueles estranhos se tornaria alguém essencial em algum dos incontáveis anos até a visita aos campos santos? Então tratamos todos igualmente bem. Pra que, se a hora chegar e algum deles se revelar especialmente promissor, não tenhamos colocado tudo por água abaixo antes da hora.
Mas, ao mesmo tempo em que estranhos se transformam nas projeções dos mais profundos desejos das pessoas, também encarnam seus maiores medos. O desconhecido que pode se revelar o amor da sua vida é o mesmo que pode vir a ser seu maior inimigo -- ou de todas as pessoas, quem vai ter ferir mais profundamente. Então a cordialidade educada é apenas o primeiro passo -- o seguinte é o reflexo mais concreto do antigo conselho "não converse com estranhos": a auto-preservação compulsória. A qualquer sinal de um movimento brusco, de algum começo de sentimento agudo demais pra tão pouca convivência, de uma admiração inexplicada aos olhos de alguém que não procura entender motivos, o alerta é soado e as medidas de defesa, levantadas. A partir daí, nasce uma verdadeira Muralha da China, erguida para barrar avanços e só possível de ser transposta depois de muito, muito esforço.
E por quê?
Por medo. Porque criamos um mundo de faz-de-conta, abstração do mundo real almofadada por ilusões, que serve como filtro entre a realidade e nós mesmos -- como se a luz do dia lá fora fosse muito mais do que quem passou tanto tempo dentro da caverna pode aguentar e as sombras fossem tudo o que fosse suportável ver. E aí, mudanças bruscas no mundo-recriado não são aceitáveis -- abalam a estrutura da ilusão e causam um temporal de insegurança que ninguém quer pra si. Porque o mundo tem que fazer sentido... né?
E aí nos fechamos, para nós e para o mundo, receosos do calor e diferença que algo novo pode trazer. Algo inadmissivelmente imprevisto. Sem espaço pré-reservado, sem território demarcado no continente da alma.
Como se houvesse obrigação em comprometer-se. Como se a culpa por não ter emoções e sentimentos amarrados a quem quer que deseje se amarrar a nós fosse justificada. Justificada pela grande obrigação moral de corresponder.
Obrigação...
que não existe.
Mas, ao mesmo tempo em que estranhos se transformam nas projeções dos mais profundos desejos das pessoas, também encarnam seus maiores medos. O desconhecido que pode se revelar o amor da sua vida é o mesmo que pode vir a ser seu maior inimigo -- ou de todas as pessoas, quem vai ter ferir mais profundamente. Então a cordialidade educada é apenas o primeiro passo -- o seguinte é o reflexo mais concreto do antigo conselho "não converse com estranhos": a auto-preservação compulsória. A qualquer sinal de um movimento brusco, de algum começo de sentimento agudo demais pra tão pouca convivência, de uma admiração inexplicada aos olhos de alguém que não procura entender motivos, o alerta é soado e as medidas de defesa, levantadas. A partir daí, nasce uma verdadeira Muralha da China, erguida para barrar avanços e só possível de ser transposta depois de muito, muito esforço.
E por quê?
Por medo. Porque criamos um mundo de faz-de-conta, abstração do mundo real almofadada por ilusões, que serve como filtro entre a realidade e nós mesmos -- como se a luz do dia lá fora fosse muito mais do que quem passou tanto tempo dentro da caverna pode aguentar e as sombras fossem tudo o que fosse suportável ver. E aí, mudanças bruscas no mundo-recriado não são aceitáveis -- abalam a estrutura da ilusão e causam um temporal de insegurança que ninguém quer pra si. Porque o mundo tem que fazer sentido... né?
E aí nos fechamos, para nós e para o mundo, receosos do calor e diferença que algo novo pode trazer. Algo inadmissivelmente imprevisto. Sem espaço pré-reservado, sem território demarcado no continente da alma.
Como se houvesse obrigação em comprometer-se. Como se a culpa por não ter emoções e sentimentos amarrados a quem quer que deseje se amarrar a nós fosse justificada. Justificada pela grande obrigação moral de corresponder.
Obrigação...
que não existe.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O que vale é a intenção
"Daniel olhava os ombros e o pescoço dela com avidez. Aquela obstinação tola o aborreceu, queria quebrá-la. Estava possuído de um desejo enorme e desastrado. Violar aquela consciência, atolar-se com ela na humildade. Mas não era sadismo. Era mais sutil, mais úmido, mais carnal. Era bondade."
(Sartre, A idade da razão)
Porque nem sempre o que é bom é indolor.
(e normalmente não é)
[melhor, não faz a gente perder a capacidade de sentir]
segunda-feira, 9 de maio de 2011
"i'm not telling you it's going to be easy...
... i'm telling you it's going to be worth it."
(sim, é clichê: mas acho que é forte o suficiente pra ser o que me mantém de pé.)
domingo, 1 de maio de 2011
Crescimento
Ouvi alguém dizer que amadurecer é saber deixar pra trás sonhos, objetivos e ideologias quando a vida pede que eles sejam abandonados. Não é. Amadurecer é saber adaptar tudo isso a um mundo novo, sem você se perder pelo caminho.
Abandonar seus sonhos e ideologias não é amadurecer: é morrer (mesmo continuando a respirar).
Abandonar seus sonhos e ideologias não é amadurecer: é morrer (mesmo continuando a respirar).
quinta-feira, 3 de março de 2011
Verdades e concessões [a/c Dani Yoko]
-
"'A mentira é uma arma valiosa. E a verdade é sempre uma concessão arriscada.' Faço dessas palavras as minhas.
Mas ainda acredito que essa concessão, apesar de arriscada, valha a pena. E porque vale tanto, é que não se entrega de bandeja por aí. Que nos preservemos para a liberdade que um dia virá. O segredo é só não temer quando ela chegar e evitar correr o risco de ser eternamente para os outros o que não se é.
Eu te entendo. Completamente."
Acho que viver é simplesmente aprender a fazer essa concessão na hora certa, pra pessoa certa. A gente tenta e tenta e tenta e erra muitas vezes até saber exatamente a medida certa entre se esconder e se mostrar. Se conseguir, mesmo que uma única vez, o esforço vale a pena.
[Mas Dani, creio que há outro risco além de ter medo da liberdade e ser eternamente para os outros o que não se é: o de mostrar-se na hora errada e acabar tendo uma parte de si pisoteada por quem recebeu mais do que merecia e acabou sem saber como lidar com tamanha preciosidade. Porque a identidade é uma joia. Há de se estar preparado para ceder a sua -- mas também para receber a de alguém.]
[Mas Dani, creio que há outro risco além de ter medo da liberdade e ser eternamente para os outros o que não se é: o de mostrar-se na hora errada e acabar tendo uma parte de si pisoteada por quem recebeu mais do que merecia e acabou sem saber como lidar com tamanha preciosidade. Porque a identidade é uma joia. Há de se estar preparado para ceder a sua -- mas também para receber a de alguém.]
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Dom Quixote moderno
"Mas desejava que me dissesses o que pensas exatamente. Você sabe, vivo cercado de meninos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. Ninguém jamais me fala de mim mesmo. Eu próprio tenho dificuldade de por vezes me encontrar."
(Sartre, A idade da razão)
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Escritores de domingo
"-- Foi esse Gauguin que fugiu? -- perguntou repentinamente Ivich.
-- Sim -- disse Mathieu com solicitude. -- Quer que lhe conte a história?
-- Acho que a conheço: era casado, tinha filhos, não é isso?
-- É! Trabalhava num banco e no domingo ia para o campo com seu cavalete e seus pinceis. Era o que chamamos 'um pintor de domingo'.
-- Pintor de domingo?
-- Sim. A princípio era isso. Um amador que borra telas no domingo, assim como a gente vai pescar. Mas por higiene, compreende, porque a gente pinta ao ar livre, respirando o ar puro.
Ivich pôs-se a rir, mas não com a expressão que Mathieu esperava.
-- Acha engraçado que ele tenha começado como pintor de domingo? -- indagou Mathieu inquieto.
-- Não, não era nele que pensava.
-- Em que então?
-- Eu estava pensando se a gente podia falar também em escritor de domingo.
Escritores de domingo! pequenos burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu."
Então é isso que somos: escritores de domingo. Um pouco menos regulares, talvez: passando por períodos de maior ou menor inquietação que fazem os domingos aparecerem mais ou menos do que uma vez por semana; mas, ainda assim, escrevendo por esse mesmo motivo: por higiene.
-- Sim -- disse Mathieu com solicitude. -- Quer que lhe conte a história?
-- Acho que a conheço: era casado, tinha filhos, não é isso?
-- É! Trabalhava num banco e no domingo ia para o campo com seu cavalete e seus pinceis. Era o que chamamos 'um pintor de domingo'.
-- Pintor de domingo?
-- Sim. A princípio era isso. Um amador que borra telas no domingo, assim como a gente vai pescar. Mas por higiene, compreende, porque a gente pinta ao ar livre, respirando o ar puro.
Ivich pôs-se a rir, mas não com a expressão que Mathieu esperava.
-- Acha engraçado que ele tenha começado como pintor de domingo? -- indagou Mathieu inquieto.
-- Não, não era nele que pensava.
-- Em que então?
-- Eu estava pensando se a gente podia falar também em escritor de domingo.
Escritores de domingo! pequenos burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu."
(Sartre, A idade da Razão)
Então é isso que somos: escritores de domingo. Um pouco menos regulares, talvez: passando por períodos de maior ou menor inquietação que fazem os domingos aparecerem mais ou menos do que uma vez por semana; mas, ainda assim, escrevendo por esse mesmo motivo: por higiene.
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