Dói tanto. É um grande desespero. O desespero de saber-se há muito preparado para um momento que não chega. Estou plenamente preparado para o amor mas nunca me ensinaram a me preparar para a preparação do amor. Estou pronto para um lugar onde não sei chegar. Sou como um atleta preparado para os Jogos Olímpicos a quem ninguém disse que ninguém nasce lá dentro. E que não sabe as regras da classificação. Mas que sobretudo não sabe esperar. Porque todo instante que passa te aproxima da morte e esperar também é morrer um pouquinho. E não estou pronto pra morrer. Passei toda a vida acreditando que qualquer um sempre estava pronto pra morrer mas agora sei que não: é necessário um grande ritual. E estou pronto para o amor, não para a morte. Mesmo que não saiba como fazê-lo nascer.
Ou será o amor uma ressuscitação? Será que todo o sentido da infinita espera seja justamente o de deixá-lo morrer para que renasça, novo e puro, como que das cinzas? Então morra logo, amor, morra logo para que eu possa assistir já o espetáculo do ressurgimento. Não sei esperar. E a preparação para o que não chega é inútil. Portanto morra logo, enquanto estou vivo e ainda há tempo. Tempo de quê? Não sei, tempo. Só se sabe o que fazer com um brinquedo quando se olha pra ele, antes disso qualquer planejamento é inútil. Uma vez esperei por muitos anos (veio daí meu ódio pela espera?) um presente e planejei cuidadosamente todas as formas de usá-lo antes mesmo de tê-lo em mãos. Tinha em mente anos de ocupação -- tudo absolutamente vão. Finalmente recebi-o e não sabia mais o que fazer com ele -- tinha-o esgotado em pensamento. Mas não tinha importância: passei a olhá-lo com calma -- porque sei ter calma sem espera -- e percebi nele milhões de novos detalhes que meu pensamento nunca seria capaz de captar, sozinho. E inventei inesgotáveis milhões novas formas de brincar.
Vou explicar: meu ódio da espera vem da sensação de impotência: o que se pode fazer esperando? É uma agonia tão grande a da expectativa. Estou por exemplo há tempos esperando uma viagem que não chega nunca. E o desespero não é nem o de ir embora porque esse eu não o tenho. O problema é o status social de quem espera: o de um amputado. De repente você se vê fora de todos os planos, como se a iminência da partida fosse razão para exclusão -- decidem que é e pronto, estou invalidado. Como se a espera te impossibilitasse de assumir compromissos: eu que vou embora e os outros que têm medo. Pois digo uma coisa: deixem um pouco de ansiedade pra mim também. Porque, apesar do ditado, a partida não é mais fácil pra quem vai do que pra quem fica: a ruptura é recíproca.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Apenas seguindo o script
E eu já devia ter desistido dessa ideia de ficar procurando uma paixão que justificasse tudo. Jogar todas as fichas num pré-requisito universal é hábito que desde a concepção se revela desastroso -- afinal, elevar algo à condição absoluta de tudo deixa o amargo efeito colateral de rebaixar todo o resto a nada enquanto essa coisa não passa de sonho. É muito mais prático pulverizar seus alicerces ou eliminá-los de vez, encarando tudo não como condição, mas como um possível catalisador pra felicidade.
Porque não dá mesmo pra fingir que há alguém que não se importe muito com ser feliz. Querendo ou não...
estamos todos condenados à felicidade.
E essa obrigação é tão limitadora.
Porque não dá mesmo pra fingir que há alguém que não se importe muito com ser feliz. Querendo ou não...
estamos todos condenados à felicidade.
E essa obrigação é tão limitadora.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Pra alguma coisa essa velhice toda há de servir
"Quando se está no foco da própria vida, é impossível refletir. E eu quero refletir, medir o mais aproximadamente possível esta coisa estranha que está acontecendo comigo, reconhecer meus próprios sinais, compensar minha falta de juventude com meu excesso de consciência."
sábado, 11 de agosto de 2012
Porque o coração é cheio de espinhos
"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando de minha própria força. Sou forte mas também destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Misread
"How come no-one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it's up to me now
Should I take that risk or just smile?
What do you know
It happened again
What do you know"
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it's up to me now
Should I take that risk or just smile?
What do you know
It happened again
What do you know"
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O crime do professor de matemática
"'Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão', pensou o homem. 'Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.'
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."
A auto-punição compensa crimes nunca condenados?
Assinar:
Postagens (Atom)